
O Google está prestes a concluir o que começou há anos. Com o Chrome 150 já em testes e previsto para o fim de junho de 2026 e a versão 151 que chega logo em seguida, o navegador remove as últimas brechas que permitiam continuar usando o uBlock Origin na sua versão original. Não é o começo do fim para o bloqueador de anúncios mais popular do Chrome. É o fim do fim.
Vale esclarecer logo de cara, porque circula a ideia de que o uBlock Origin "para de funcionar agora". Na verdade, a extensão está desativada para a maioria dos usuários desde meados de 2025. O que morre com o Chrome 150 e 151 são os truques que a mantinham viva apesar de tudo.
A origem é a migração do Manifest V2 para o Manifest V3, o conjunto de regras que define o que as extensões do navegador podem e não podem fazer. O Google anunciou o cronograma de descontinuação em novembro de 2023 e começou a aplicá-lo em 2024.
O momento decisivo foi o Chrome 138, a última versão que tolerava extensões Manifest V2 (e somente com uma política corporativa para reativá-las). Com o Chrome 139, o Google retirou essa política e a desativação passou a atingir todos os usuários de uma só vez. Desde então, quem queria manter o uBlock Origin completo no Chrome dependia de remendos: uma flag interna do navegador, uma modificação no registro do Windows, alguma política residual.
São justamente esses remendos que agora desaparecem.
Segundo uma discussão no repositório do grupo de trabalho WebExtensions do W3C, divulgada pelo Neowin, um colaborador do Chromium (Andrey Bershanskiy) e um engenheiro do Google (Devlin Cronin) confirmaram que o código que controlava a disponibilidade do Manifest V2 está sendo eliminado. A divisão fica assim:
ExtensionManifestV2Disabled. Cronin explicou que essa função estava ativada por padrão havia mais de um ano, então retiraram tanto a opção quanto o código associado.ExtensionManifestV2Unsupported, ExtensionManifestV2Availability e, muito provavelmente, AllowLegacyMV2Extensions.A consequência prática é que a conhecida modificação no registro do Windows que prolongava o suporte deixará de funcionar a partir do Chromium 151. Cronin foi claro sobre o motivo: manter o Manifest V2 indefinidamente é inviável pela complexidade, pela dívida técnica e pelos riscos de segurança segundo ele, encontraram vários bugs específicos do MV2 recentemente. Também reconheceu que não vão apagar todo o código de uma vez, de modo que algumas coisas continuarão funcionando por um tempo antes de sumirem de vez.
O Manifest V2 permitia às extensões usar a API webRequestBlocking, que lhes dava a capacidade de inspecionar e bloquear requisições de rede em tempo real. Esse poder é o que tornava o uBlock Origin tão eficaz, sobretudo contra anúncios e rastreadores que mudam o tempo todo, como os do YouTube.
O Manifest V3 substitui esse mecanismo pelo declarativeNetRequest, que obriga as extensões a trabalhar com listas de regras predefinidas em vez de decidir na hora. O Google aumentou os limites dessas regras (da ordem de centenas de milhares de regras estáticas e dezenas de milhares dinâmicas) e defende que o modelo é mais seguro e mais rápido. Mas é uma camisa de força: um bloqueador já não pode reagir ao que vê, apenas aplicar o que tinha escrito de antemão. Contra uma plataforma que atualiza seus anúncios diariamente, essa diferença pesa.
Ficar no Chrome com o uBlock Origin Lite. O próprio desenvolvedor do uBlock Origin, Raymond Hill (gorhill), oferece uma versão Lite construída sobre o Manifest V3. Funciona e continua bloqueando anúncios, mas com as limitações que o Chrome impõe. Não é a mesma coisa: o bloqueio em sites como o YouTube é mais fraco. Outros bloqueadores conhecidos também lançaram suas versões MV3 com cortes parecidos.
Trocar de navegador. Aqui há alternativas reais:
O resto do ecossistema Chromium tende a seguir o Google. O Microsoft Edge começou a desativar o uBlock Origin em fevereiro de 2026, e a Opera que em outubro de 2024 havia prometido manter o suporte por mais tempo avisou os desenvolvedores de que está abandonando o Manifest V2.
Curiosamente, em junho de 2026 o uBlock Origin completo ainda aparece na Chrome Web Store, na versão 1.71.0 e com milhões de usuários. Ainda é Manifest V2 e usa a API antiga. Mas a sua própria página no GitHub já avisa sobre o fim do suporte no Chrome e, com a chegada das versões 150 e 151, seu futuro no navegador do Google fica, na prática, decretado.
O recado ao usuário é simples: se você depende de bloqueio de anúncios potente no Chrome, as próximas semanas são a hora de decidir se aceita uma versão reduzida ou migra para um navegador que ainda lhe dê o que você tinha. O Google avisou durante dois anos. A contagem regressiva termina agora.
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